Tiros, sirenes e aplausos.

Tudo o que ocorre na sociedade de nossos dias é fruto de ideias, sejam elas boas, sejam elas más. Faz-se necessário combater as más ideias. Devemos lutar contra tudo o que não é bom na vida pública. Devemos substituir as ideias errôneas por outras melhores, devemos refutar as doutrinas que promovem a violência(…) Ideias e somente ideias podem iluminar a escuridão.”                                                                                                      (Ludwig Von Mises – As seis lições)

Um assalto a uma farmácia num bairro de classe média da Grande Natal teve um desfecho surpreendente: o assaltante, após levar o dinheiro do estabelecimento e fazer um balconista refém, trocou tiros com a polícia que chegara segundos depois à consumação dos fatos. Resultado: o balconista foi ferido na perna por um tiro de revolver do criminoso, e o bandido, atingido pela polícia, ficou estirado no chão, morto. Nenhuma novidade até então, pois combates armados de vida ou morte fazem parte da rotina dos operadores de segurança pública no país inteiro. O que impressionou – e o autor deste artigo é testemunha ocular do fato – foi a reação da população do local: desde o humilde frentista do posto de gasolina, dos moradores nas janelas dos prédios e transeuntes do local, todos – sem exceção – aplaudiram efusivamente a ação legítima da polícia. A sensação de quem estava no local era de que se comemorava um gol da seleção numa partida de Copa do Mundo.

Era algo completamente inusitado. Essa ação ocorria num momento em que todo o estado sofria a mais grave crise de segurança pública da história do Rio Grande do Norte. Organizações criminosas, de dentro dos presídios, sitiavam todo o estado desafiando o poder público. Enquanto a população aterrorizada evitava sair de casa, policiais e bombeiros se revezavam – a maioria voluntariamente – em escalas extra para fazer o combate corpo a corpo aos criminosos. E foi nesse momento de controvérsia e desafio que a população percebeu a verdadeira medida da importância de seus policiais. No momento em que o estado literalmente pegava fogo eram eles e somente eles que, correndo enorme risco pessoal, faziam o combate armado nas ruas representando assim a ultima trincheira de proteção da sociedade civilizada.

Os aplausos das pessoas poderiam significar à olhos desavisados, pura e simplesmente, uma manifestação espontânea de uma população que não aguenta mais ter sua paz e liberdade sequestradas pela criminalidade. Mas não se tratava somente disso, nem tampouco de uma comemoração da morte de um bandido. Era, na verdade, uma emblemática reconciliação da sociedade com seus protetores. Foi justamente no maior momento de crise que a bravura e o heroísmo dos policiais conseguiu dissipar finalmente a névoa ideológica de preconceito que estigmatizou os profissionais de segurança pública nos últimos anos no Brasil.

A realidade se impôs à ideologia e delimitou claramente mocinhos e vilões. Não cabia mais, pelo menos naquele momento, ginásticas conceituais ou visões ideológicas equivocadas. O bandido que jazia no chão era branco, de classe média, universitário e havia estudado em uma das melhores escolas religiosas da capital. No caso em tela nada encaixava na desdentada narrativa da luta de classes, que sempre tende a tirar o foco da responsabilidade pessoal do criminoso para esquizofrenicamente categorizar em questões sociais, raciais ou econômicas.

Faixas de agradecimento à polícia foram fixadas nas passarelas e viadutos. Uma carreata de agradecimento foi organizada para celebrar o heroísmo desses homens e mulheres. Parcela considerável da mídia, sempre tão contaminada pelas visões marxistas que deformam, juntamente com a cannabis, a mentalidade de tantos estudantes de humanas das universidades, foi obrigada a mostrar a realidade e o valor dos profissionais de segurança pública. O reconhecimento de boa parte da população ficou tão evidente neste episódio que não houve clima para as costumeiras condenações prévias das ações policiais.

No momento em que se discute o “escola sem partido” é oportuno que se aproveite o momento para se discutir também a “segurança pública sem ideologia”. A tragédia da segurança pública atual reflete necessariamente a tragédia da politização – em sentido pejorativo – da mesma. Esta área é essencialmente técnica e fazer empirismo ideológico nela significa colocar toda a sociedade em risco, o que, de fato, o crescimento da violência à níveis estratosféricos comprovou nos últimos anos.

Todas as premissas esquerdistas que se tornaram hegemônicas nesta matéria nos últimos anos se revelaram falsas. O desarmamento da população não desarmou os criminosos. Mesmo com o assistencialismo estatal diminuindo, ainda que artificialmente, a chamada  “desigualdade social” os números da violência aumentaram exponencialmente. E a atual crise carcerária mostrou que o mantra foucaultiano de que “cadeia não resolve” é apenas uma balela progressista, pois restou claro e evidente que deixar criminosos violentos soltos só aumenta a mão de obra operacional e a capacidade de agressão do crime organizado.

Tanto Mises quanto Ayn Rand defendiam que ideias ruins se combatem com ideias melhores. Se queremos de fato uma segurança pública de primeiro mundo o primeiro passo é promover não só a reconciliação entre polícia e cidadãos, mas se discutir efetivamente a matéria a partir de quem a vive a realidade dos fatos. O bandido perigoso de arma na mão é completamente diferente daquele algemado (e aparentemente inofensivo) que o magistrado e o promotor de justiça observam nas audiências criminais( e que é muito parecido como bandido vitimizado da ótica marxista dos “especialistas” das universidades e dos Direitos Humanos).

Temos uma oportunidade única para todas as polícias deixarem suas diferenças classistas de lado e se unirem à sociedade civil organizada para criar projetos de lei de iniciativa popular, com milhões de assinaturas de apoio, de fortalecimento da atividade policial que deem às forças policiais brasileiras treinamento, armamento, viaturas blindadas e retaguarda jurídica que existem nas melhores polícias do primeiro mundo.

Se o MP está promovendo as “10 medidas contra a corrupção”, chegou a hora da sociedade e sua polícia promoverem as suas próprias “10 medidas de fortalecimento da atividade policial contra a criminalidade violenta”.

Filipe Bezerra é Policial Rodoviário Federal, bacharel em Direito pela UFRN, pós-graduado em Ciências Penais pela Uniderp e bacharelando em Administração Pública pela UFRN.

 

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