De Adriana Caringi ao PM Marcos Marques da Silva ou como o politicamente correto ensinou à criminalidade a usar a sociedade como escudo humano e inviabilizou, na prática, a atividade policial no Brasil.

Houve um tempo, num passado não muito distante, onde a polícia podia tudo – para o bem ou para o mal – no combate urbano à criminalidade. Um exemplo fático disso foi o episódio conhecido como “quatrocentos contra um” ocorrido em 3 de abril de 1981. Quatrocentos policiais civis e militares fizeram um gigantesco cerco a meia dúzia de traficantes/assaltantes de banco num conjunto residencial no Rio de Janeiro. Mais de 2000 tiros foram disparados, o prédio residencial foi parcialmente destruído por explosivos. Resultado: três policiais mortos, quatro feridos, um prédio destruído e o criminoso conhecido como Zé Bigode neutralizado.

À época havia muita vontade de enfrentar bandidos e pouca técnica policial. Havia um estado amparando as ações policiais, que, com eventuais excessos ou não, conseguiam, custasse o que custasse, fazer a contenção da criminalidade violenta.

Os policiais do passado não usavam coletes mas eram temidos pelos bandidos. Não havia armamento de ponta além dos velhos revólveres 38, mas havia muita disposição para o enfrentamento. As viaturas faziam os marginais tremerem as pernas quando passavam. O cidadão comum, cumpridor da lei, andava tranquilo com seus filhos na rua e dificilmente tinha problemas com as autoridades constituídas.

Mas algo mudou no meio do caminho. E há outra ocorrência famosa que parece ser o ponto de ruptura de um passado de liberdade total de ação para a atual situação de grave fragilidade em que a polícia se encontra hoje: o caso do cerco aos assaltantes/sequestradores da professora Adriana Caringi no dia 20 de março de 1990. Neste episódio, um assalto que evoluiu pra uma situação com reféns numa residência, um cabo do GATE(*), considerado um dos melhores atiradores da tropa paulista, avaliou a situação e pensou que havia uma boa janela de oportunidade para encerrar a ocorrência. Na janela a cabeça do sequestrador estava na sua alça de mira, então ele apontou seu fuzil e atirou. Acertou o alvo, mas não contava que a professora sequestrada também teria sua cabeça transpassada pelo projétil. Resultado: um bandido e uma inocente mortos. O caso, como não haveria de ser, causou grande repercussão na imprensa e nas polícias de forma geral. E provocou, a partir dali, um efeito colateral extremamente mortal: a polícia, que antes tudo podia, passou para o outro extremo: o de quase nada mais poder. Isso foi visto claramente no caso Eloá e no caso do Ônibus 147. A inação da polícia neste dois casos são reflexos diretos da interferência política e de parcela da mídia, sempre tão ávida por sensacionalismo. O receio da condenação sumária por qualquer erro operacional agravaram essas situações.

Protocolos de ação policial em ocorrências complexas envolvendo reféns são algo relativamente recente não só no Brasil, mas também em países de primeiro mundo. Quem assistiu o filme “Um dia de cão”, produção hollywoodiana de 1975, pôde observar como a polícia americana agiu de forma instintiva e improvisada no roubo a banco ocorrido em Nova York no dia 22 de agosto de 1972, retratado fielmente nesta obra cinematográfica.

O resultado direto de uma polícia hesitante e fragilizada é a pilha de 70.000 cadáveres anuais vítimas de uma criminalidade desenfreada que não encontra reação efetiva e proporcional do estado. Leis débeis, interpretações judiciais lenientes e cultura pró-banditismo e antipolicial também tem grande parcela de responsabilidade nesta tragédia.

Não se advoga aqui a licença irrestrita para agir. As ocorrências onde morrem reféns são um desastre lamentável e o estado tem a obrigação de indenizar as vítimas. Mas uma verdade inconveniente precisa ser dita com todas as letras: a cobrança politicamente correta da perfeição operacional em todas as ocorrências desconsidera a falibilidade da natureza humana. O policial não é super-herói e, sob imenso stress e correndo risco de vida, em algum momento vai errar e, infelizmente, inocentes eventualmente serão feridos ou morrerão como efeitos colaterais de um combate urbano. Isso é indesejável e lamentável, sem dúvida, mas não existe cenário absolutamente controlado em áreas urbanas, sobretudo as densamente povoadas.

Mas ou aceitamos que polícia deve agir em nome do bem comum, mesmo com erros eventuais e justificáveis, ou renunciamos nossa liberdade entregando nosso destino ao caos do banditismo( e é exatamente isso que está acontecendo hoje no Brasil).

Quando a elite da polícia britânica matou, por engano, Jean Charles, o estado viu que tinha o dever de indenizar. Mas se aqueles policiais sentissem que sua ação não era amparada pelo estado, naquele momento tão sensível, e fossem punidos por agir em tais circunstâncias( no caso bombas e terrorismo), a sociedade seria fragilizada porque ninguém mais se arriscaria por ela.

É por isso que os atuais protocolos de ação das polícias estrangeiras miram no melhor resultado possível e não a muitas vezes inatingível perfeição operacional. Foi por isso que, em 14 de dezembro de 2014 a elite da polícia australiana, para colocar fim a 17 horas de sequestro num café em Sidney, decidiu invadir a cafeteria e matar o sequestrador. Dos 19 reféns, dois morreram. Foi o melhor possível naquelas circunstâncias. A sociedade de lá entendeu o óbvio: é melhor salvar 17 do que nenhum ou menos que isso. Ou a polícia age, ou será pior, mesmo que isso signifique alguma lamentável perda em decorrência desta ação. No Brasil parece ser preferível a morte de 70.000 pessoas nas mãos da criminalidade do que um eventual erro policial vitimar um inocente.

Os bandidos brasileiros estão cada vez mais agressivos porque sabem que poderão usar, impunemente, a sociedade como refém. E terão ONGs, jornalistas e políticos para condenar, sumariamente, qualquer milímetro de margem de erro da polícia. E foi isso que tornou a população do país inteiro refém da criminalidade no últimos anos.

O policial, abandonado por tudo e por todos, é um kamicaze involuntário nesta tragédia. É um herói incompreendido e rejeitado. É espremido entre sua natural vontade de agir, pelo seu instinto de cão pastor, e por uma realidade que a todo momento lhe diz: não vale a pena.

Hoje um grande herói tombou no cumprimento do dever. Estava sozinho contra marginais em superioridade numérica e de armamento. Foi pra cima dos bandidos perigosos contra tudo e contra todos. Mas deixou de agir porque havia um refém no caminho. Mas tanta coisa deve ter passado na cabeça dele nos segundos finais…tanta coisa que o impediu de fazer o que deveria ser feito: puxar o gatilho e preservar a própria vida, voltar pra sua casa e sua família.

Não há nada que condene mais a sociedade à barbárie do que ideologias e doutrinas que matem o espírito de combatente de um policial e coloquem em seu lugar o receio e a hesitação em agir, motivados pelo mais absoluto desamparo e incompreensão da verdadeira natureza desta atividade.

Ou mudamos essa mentalidade imediatamente, ou estaremos irremediavelmente perdidos.

Filipe Bezerra é Policial Rodoviário Federal, Bacharel em Direito pela UFRN, pós-graduado em Ciências Penais e bacharelando em Administração Pública pela UFRN.

Ps(*) – Colegas policiais de São Paulo informaram que o cabo que fez o tiro de comprometimento da ocorrência relatada acima afirmou, diversas vezes, que não tinha visibilidade total para fazê-lo, e que teria agido após ser muito pressionado. A intenção deste relato não é expô-lo ou “condená-lo” – é tanto que este autor sequer citou seu nome – mas fazer um histórico de como chegamos a atual situação de termos sido encurralados pelo politicamente correto e não termos quase nenhum respaldo de atuação. A opinião pessoal do autor é de que a ocorrência em questão foi uma grande fatalidade.

caos

PASSOS LARGOS RUMO À REPACTUAÇÃO SOCIAL

O episódio envolvendo dois policiais, que dispararam contra criminosos após intenso confronto, quando caídos ao lado de fuzis e pistolas, passa a integrar o cenário em que se debruça a rotina nas ruas do Rio de Janeiro. 

O último caso é oriundo de mais um vídeo gravado por algum morador das imediações de uma favela que, pelo recorte das imagens, simpatiza com o tráfico, e, como de costume, viralizou nas redes e provocou comentários de toda sorte, com destaque para os policiólogos de plantão.

A imprensa dá a notícia, como sempre, sem a devida apuração e reproduzindo o mesmo vídeo sem contexto. E com um simbolismo atroz, chama de “pessoas” ou “homens”, sequer suspeitos, os elementos caídos ao lado de seus “instrumentos de trabalho”, fuzis e pistolas, sendo alvejados pelos agentes da lei e da ordem. 

A cena tem se repetido com frequência cada vez maior. Dessa forma, policiais passam a pagar com suas vidas ou, “com sorte”, com sua liberdade (e sem ela morrem socialmente), a conta de todo o processo de desintegração da estrutura estatal. 

Agentes de polícia, infelizmente, têm se tornado apenas guerreiros, combatentes forjados nas batalhas, nas Pedreiras, nos Chapadões, nos Alemães, nas Marés, e, por isso, animados apenas pelo combate. Esses servidores públicos têm experimentado, juntamente com seus familiares, toda a insanidade advinda da guerra. 

Há regras até mesmo em uma guerra, disseram alguns, e isso é fato. Mas as regras em uma guerra são válidas para ambos os lados em um combate. E não é o que se observa. Policiais e seus familiares têm sido caçados e alvejados em casa, na rua, quando não estão nas frentes de batalha, e ficam mais vulneráveis. 

Além disso, em situações de guerra, determinadas regras do direito penal e processual penal são excepcionadas. Não estamos a tratar com criminosos, mas com inimigos da sociedade e do modo de vida que conhecemos! Portanto, não é admissível que se utilize esses argumentos garantistas de forma assimétrica. 

Os “exércitos inimigos” foram forjados na corrupção, na omissão, e têm suas fileiras engrossadas pelas crianças sem escola, pelos pais invisíveis, pela inversão de valores, pelos péssimos exemplos! Há um anacronismo latente, que enfraquece as instituições e torna-se nervo exposto na sociedade. E esta, alienada e hipnotizada pela mídia, caminha alegremente em direção ao precipício!

A cena fluminense assume contornos dramáticos. O Estado patina nas atividades que lhes dá sentido e legitimidade. Soma-se a esse caos, uma imprensa que regurgita sua eterna mágoa dos tempos de censura, confundindo a polícia cidadã de hoje com a guarda pretoriana de outros tempos. 

Desse caldo resulta a fratura da credibilidade da atuação policial. E o que se vê é o último bastião a separar civilização e barbárie sendo rompido. Mostra-se inevitável e premente a repactuação com a sociedade.
Autor: André Azevedo é Policial Rodoviário Federal e Pós graduado em Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito Constitucional e Gestão Pública pela Universidade Gama Filho. Especialista em Logística e Mobilização Nacional pela Escola Superior de Guerra (ESG). 

A EXTINÇÃO DA APOSENTADORIA POLICIAL ESPECIAL É O TIRO DE MISERICÓRDIA NA SEGURANÇA PÚBLICA BRASILEIRA.

É impossível imaginar um policial idoso em atividade. Em nenhuma outra profissão a vitalidade da juventude é tão essencial. E no momento que a criminalidade avança sobre a sociedade brasileira, com índices dignos de uma guerra civil não declarada, fragilizar o já combalido arcabouço garantidor dessa atividade é uma aberração legislativa. É mais que um tiro no pé, é um tiro de misericórdia.

Há no mundo civilizado movimento inverso. No primeiro mundo há compensações e incentivos para aqueles que desejam ser policiais. A aposentadoria diferenciada, própria de uma atividade de risco e estressante que desgasta o organismo humano mais rápido que as outras, é apenas um item que inclui também, em muitos países, seguros de vida pagos pelo próprio estado e renúncias e descontos fiscais.

A questão é puramente lógica: quem trabalha arriscando a vida para proteger o patrimônio e a vida dos outros merece uma justa compensação por isto. Por este motivo a atividade de risco é reconhecida pela própria Constituição Federal.

Não bastasse o recente desmonte das garantias da atividade policial( dos ataques ao Auto de Resistência à tendenciosa Audiência de Custódia) ela também foi jogada na vala comum quando se trata de benefícios de seguridade social.

Mesmo com o país sendo recordista mundial de assassinatos de policiais(foram 496 só em 2016), as pensões por morte dos servidores policiais não tiveram qualquer diferenciação. Esse foi o prêmio bizarro que o estado brasileiro deu aos seus policiais através da lei 13.135/15: viúvas de policiais com menos de 44 anos não recebem pensão de forma vitalícia e integral, e em poucos anos famílias inteiras ficam desamparadas. Mais um belo estímulo para o enfrentamento da criminalidade!

Quando se questionou o direito de greve de policiais o STF rapidamente se pronunciou no sentido de vedar essa possibilidade. O argumento, segundo o plenário da corte, é de que policiais se equiparam aos militares e, portanto, são proibidos de fazer greve, “em razão de constituírem expressão da soberania nacional, revelando-se braços armados da nação, garantidores da segurança dos cidadãos, da paz e da tranquilidade públicas”, arguiu o ministro Gilmar Mendes.

Quando se trata de ônus tudo é depositado contra os policiais. Mas os bônus não seguem a mesma linha, e isso foi claramente evidenciado com PEC287 que trata da reforma da previdência. Em nenhum momento os servidores policiais tiveram a diferenciação dada, de imediato, aos militares.

Se a reforma passar veremos policiais deixando a atividade somente na compulsória aos 75 anos idade. Os que sobreviverem – e a expectativa de vida de um policial no Brasil é de apenas 59 anos – não se aposentarão aos 65 anos, a já absurda idade mínima estipulada, pois preferirão se arrastar dentro de uma farda do que ter seus proventos seriamente diminuídos no momento que eles próprios e suas famílias mais precisam. Eles – os policiais idosos – ocuparão por décadas as vagas que deveriam ser de novos policiais que, mesmo numa guerra assimétrica, teriam pelos menos idade para combater criminosos jovens, cada vez mais violentos e audaciosos.

Ao transformar a atividade policial numa prisão salarial perpétua, o governo está assassinando o que resta de segurança pública da sociedade brasileira. Poucas vezes se viu um atentado legislativo dessa magnitude. E justamente no momento que toda a população clama desesperadamente por mais segurança!

Filipe Bezerra é Policial Rodoviário Federal, Bacharel em Direito pela UFRN, pós-graduado em Ciências Penais e bacharelando em Administração Pública pela UFRN.

OLD COP2

CARTA ABERTA AOS POLICIAIS DO BRASIL

Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada.” 
                                                                                                                                      Edmund Burk                                                                                                   police-scene

Há apenas uma coisa mais absurda do que um helicóptero ser derrubado por criminosos ou policiais serem assassinados às centenas por bandidos: não haver uma reação completa e organizada a esse mal.

E quando se fala em reação não se trata tão somente à reação bélica imediata à agressão( coisa já é feita na maioria dos casos). Os atuais ataques à policiais perpetrados por criminosos comuns ou pelo crime organizado são apenas um sintoma, não a doença. A cultura de subversão de valores que glamorizou o crime, promoveu a impunidade e criminalizou a atividade policial é a grande responsável pelo atual estado de coisas. Ela não apenas incutiu na mentalidade do marginal que ele é um injustiçado social( dando-lhe quase o “direito a delinquir”), como também promoveu a demonização do policial e o desmonte jurídico e político de sua atividade.

Quando uma categoria profissional é atacada a reação é imediata. Quando a PEC 37 ameaçou tirar o poder de investigação do Ministério Público em 2013 os membros do parquet estadual e federal reagiram de forma uníssona. Suas associações foram à imprensa e se manifestaram publicamente CONTRA tal medida. Quando se cogitou o chamado “crime de hermenêutica” na projeto de lei sobre abuso de autoridade(PLS 280/2016) todas as associações de magistrados reagiram. Houve abaixo-assinados, manifestações na mídia e no espaço político. A mesma coisa acontece quanto se ataca interesses de médicos, engenheiros, advogados e etc.

Quando se ataca a polícia nada disso é visto. Observamos inertes enquanto ONGs e políticos alinhados aos “injustiçados sociais” atacaram o Auto de Resistência. Ficamos mudos quando veio a “Audiência de Custódia” com a “boa intenção” de agilizar o processo penal, e hoje já está suficientemente clara a sua real intenção: ser promotora da famigerada política de desencarceramento que deixa livres bandidos perigosos que continuam livres e soltos pra assaltar e matar( como o caso do assaltante que matou o Policial Rodoviário Federal ontem à noite em Fortaleza. Ele já respondia por pelo menos dois homicídios e dois assaltos à mão armada). Considerável parte da mídia tem uma clara pauta antipolicial e aparenta atuar na prática como relações públicas de bandidos, sempre se apressando a condenar qualquer ação policial e usar toda a sorte de eufemismos para proteger bandidos.

Perdidos entre demandas meramente classistas, disputas institucionais de poder e divisões internas os policiais brasileiros são presas fáceis do politicamente correto por serem incapazes de se unir. Parece que estão eternamente condenados a expiar os pecados do Regime Militar e por isso simplesmente não reagem à injusta e sistemática campanha de desmoralização pública. Retratados como heróis nas séries televisivas dos anos 80 hoje são demonizados como corruptos e psicopatas em praticamente todas as produções culturais. A promoção da chamada policiofobia foi a responsável por fazer a sociedade não demonstrar nenhuma empatia em relação ao assassinato de seus protetores como acontece em qualquer país civilizado, onde a população sai as ruas para protestar e as autoridades lamentam publicamente o fato. O Brasil é o país onde o policial parece ser um ente alienígena, que não pertence nem ao estado, nem à sociedade.

Mas como cobrar solidariedade e defesa da sociedade se nos negamos a combater culturalmente nossos detratores? Nada acontece no âmbito social se não for precedido no âmbito cultural. Enquanto a cultura antipolicial avançou, sem resistência, nas casas legislativas e judiciárias, redações de jornais e universidades( a ponto de uma estudante PM ser expulsa da sala de aula por sua farda “agredir” os presentes) nos últimos anos nada foi feito de forma organizada para contrapor esse mal.

Ou os policiais de todas as forças se unem, deixando todas as diferenças de lado, e lutam juntos contra esse caos – não só com armas de fogo mas também com canetas, microfones e passeatas – e trazem a sociedade a reboque ou tudo estará perdido. É preciso que se preparem pessoas que sejam multiplicadores da cultura policial em todos âmbitos. Policiais precisam ocupar papel de protagonistas no âmbito da segurança pública publicando livros, escrevendo artigos, participando maciçamente das discussões legislativas fazendo do contraponto cultural uma verdadeira guerra de chão: ocupado culturalmente casa por casa, quarteirão por quarteirão para recuperar o terreno perdido.

Se continuarmos achando que o crime só se combate com o bico do fuzil, seremos aniquilados. Somos um milhão de operadores de segurança pública. Temos uma força enorme e somos naturalmente formadores de opinião. Chegou a hora de exigir respeito não só boicotando os veículos de (des)informação, entidades e pessoas que atuam na prática como relações públicas de bandidos como também restaurando o bom senso através da participação ativa da guerra cultural por corações e mentes, eliminando, de uma vez por todas, o espiral do silêncio que nos encurralou.

Filipe Bezerra é Policial Rodoviário Federal, bacharel em Direito pela UFRN, pós-graduado em Ciências Penais pela Uniderp e bacharelando em Administração Pública pela UFRN.

A “falácia” dos “direitos humanos” e o nivelamento da polícia por baixo: opiniões extremadas sobre polícia e a questão da segurança pública.

Tiros, sirenes e aplausos.

Tudo o que ocorre na sociedade de nossos dias é fruto de ideias, sejam elas boas, sejam elas más. Faz-se necessário combater as más ideias. Devemos lutar contra tudo o que não é bom na vida pública. Devemos substituir as ideias errôneas por outras melhores, devemos refutar as doutrinas que promovem a violência(…) Ideias e somente ideias podem iluminar a escuridão.”                                                                                                      (Ludwig Von Mises – As seis lições)

Um assalto a uma farmácia num bairro de classe média da Grande Natal teve um desfecho surpreendente: o assaltante, após levar o dinheiro do estabelecimento e fazer um balconista refém, trocou tiros com a polícia que chegara segundos depois à consumação dos fatos. Resultado: o balconista foi ferido na perna por um tiro de revolver do criminoso, e o bandido, atingido pela polícia, ficou estirado no chão, morto. Nenhuma novidade até então, pois combates armados de vida ou morte fazem parte da rotina dos operadores de segurança pública no país inteiro. O que impressionou – e o autor deste artigo é testemunha ocular do fato – foi a reação da população do local: desde o humilde frentista do posto de gasolina, dos moradores nas janelas dos prédios e transeuntes do local, todos – sem exceção – aplaudiram efusivamente a ação legítima da polícia. A sensação de quem estava no local era de que se comemorava um gol da seleção numa partida de Copa do Mundo.

Era algo completamente inusitado. Essa ação ocorria num momento em que todo o estado sofria a mais grave crise de segurança pública da história do Rio Grande do Norte. Organizações criminosas, de dentro dos presídios, sitiavam todo o estado desafiando o poder público. Enquanto a população aterrorizada evitava sair de casa, policiais e bombeiros se revezavam – a maioria voluntariamente – em escalas extra para fazer o combate corpo a corpo aos criminosos. E foi nesse momento de controvérsia e desafio que a população percebeu a verdadeira medida da importância de seus policiais. No momento em que o estado literalmente pegava fogo eram eles e somente eles que, correndo enorme risco pessoal, faziam o combate armado nas ruas representando assim a ultima trincheira de proteção da sociedade civilizada.

Os aplausos das pessoas poderiam significar à olhos desavisados, pura e simplesmente, uma manifestação espontânea de uma população que não aguenta mais ter sua paz e liberdade sequestradas pela criminalidade. Mas não se tratava somente disso, nem tampouco de uma comemoração da morte de um bandido. Era, na verdade, uma emblemática reconciliação da sociedade com seus protetores. Foi justamente no maior momento de crise que a bravura e o heroísmo dos policiais conseguiu dissipar finalmente a névoa ideológica de preconceito que estigmatizou os profissionais de segurança pública nos últimos anos no Brasil.

A realidade se impôs à ideologia e delimitou claramente mocinhos e vilões. Não cabia mais, pelo menos naquele momento, ginásticas conceituais ou visões ideológicas equivocadas. O bandido que jazia no chão era branco, de classe média, universitário e havia estudado em uma das melhores escolas religiosas da capital. No caso em tela nada encaixava na desdentada narrativa da luta de classes, que sempre tende a tirar o foco da responsabilidade pessoal do criminoso para esquizofrenicamente categorizar em questões sociais, raciais ou econômicas.

Faixas de agradecimento à polícia foram fixadas nas passarelas e viadutos. Uma carreata de agradecimento foi organizada para celebrar o heroísmo desses homens e mulheres. Parcela considerável da mídia, sempre tão contaminada pelas visões marxistas que deformam, juntamente com a cannabis, a mentalidade de tantos estudantes de humanas das universidades, foi obrigada a mostrar a realidade e o valor dos profissionais de segurança pública. O reconhecimento de boa parte da população ficou tão evidente neste episódio que não houve clima para as costumeiras condenações prévias das ações policiais.

No momento em que se discute o “escola sem partido” é oportuno que se aproveite o momento para se discutir também a “segurança pública sem ideologia”. A tragédia da segurança pública atual reflete necessariamente a tragédia da politização – em sentido pejorativo – da mesma. Esta área é essencialmente técnica e fazer empirismo ideológico nela significa colocar toda a sociedade em risco, o que, de fato, o crescimento da violência à níveis estratosféricos comprovou nos últimos anos.

Todas as premissas esquerdistas que se tornaram hegemônicas nesta matéria nos últimos anos se revelaram falsas. O desarmamento da população não desarmou os criminosos. Mesmo com o assistencialismo estatal diminuindo, ainda que artificialmente, a chamada  “desigualdade social” os números da violência aumentaram exponencialmente. E a atual crise carcerária mostrou que o mantra foucaultiano de que “cadeia não resolve” é apenas uma balela progressista, pois restou claro e evidente que deixar criminosos violentos soltos só aumenta a mão de obra operacional e a capacidade de agressão do crime organizado.

Tanto Mises quanto Ayn Rand defendiam que ideias ruins se combatem com ideias melhores. Se queremos de fato uma segurança pública de primeiro mundo o primeiro passo é promover não só a reconciliação entre polícia e cidadãos, mas se discutir efetivamente a matéria a partir de quem a vive a realidade dos fatos. O bandido perigoso de arma na mão é completamente diferente daquele algemado (e aparentemente inofensivo) que o magistrado e o promotor de justiça observam nas audiências criminais( e que é muito parecido como bandido vitimizado da ótica marxista dos “especialistas” das universidades e dos Direitos Humanos).

Temos uma oportunidade única para todas as polícias deixarem suas diferenças classistas de lado e se unirem à sociedade civil organizada para criar projetos de lei de iniciativa popular, com milhões de assinaturas de apoio, de fortalecimento da atividade policial que deem às forças policiais brasileiras treinamento, armamento, viaturas blindadas e retaguarda jurídica que existem nas melhores polícias do primeiro mundo.

Se o MP está promovendo as “10 medidas contra a corrupção”, chegou a hora da sociedade e sua polícia promoverem as suas próprias “10 medidas de fortalecimento da atividade policial contra a criminalidade violenta”.

Filipe Bezerra é Policial Rodoviário Federal, bacharel em Direito pela UFRN, pós-graduado em Ciências Penais pela Uniderp e bacharelando em Administração Pública pela UFRN.